HISTÓRIA DA UNIÃO CULTURAL TCHECO BRASILEIRA EM SÃO PAULO

Temos conhecimento dos primeiros imigrantes tchecos no Brasil no estado de Minas Gerais, aonde chegaram em 1823. Eles vieram das redondezas da cidade de Třeboň, sul da Boêmia, na qual também nasceu a mãe do conhecido presidente brasileiro Juscelino Kubitschek de Oliveira. Durante sua gestão foi construída a nova capital do Brasil, Brasília, no ano de 1960, deixando, portanto de ser capital da nação a cidade do Rio de Janeiro.

Somente no ano de 1893 foi organizada a primeira expedição de tchecos para o Brasil. Eles vieram da região chamada de “Paraíso Tcheco”, de cidades como Roveň, Madějov e outras adjacentes. Participaram desta expedição especialmente agricultores e artesãos. Vieram com a intenção de fundar uma colônia tcheca na região sul do País, no estado de Santa Catarina. Chegando ao Rio de Janeiro, ficaram sabendo da “revolução federalista”, que acontecia justamente no seu local de destino, colocando por terra seus planos de lá se instalar. Assim, a expedição se dirigiu para a cidade de São Paulo, capital do estado do mesmo nome. Eram oito famílias e cinco rapazes solteiros.

Em pouco tempo, no dia 13 de outubro de 1895, fundaram a associação tcheca em São Paulo, sob o nome de UNIÃO EDUCACIONAL E DE APOIO SLAVIA, que na época, contava com vinte membros aproximadamente. Sua sede ficava em uma casa na rua Correa Dias, região da Vila Mariana. Nesta tosca residência também moravam as oito famílias de imigrantes. A ASSOCIAÇÃO SLAVIA era o embrião da atual UNIÃO CULTURAL TCHECO BRASILEIRA. A última mudança de nome se deu no dia 13 de agosto de 1993.

Os membros fundadores da associação fizeram de tudo para manter o sentimento nacional, as tradições e os costumes tchecos. Logo no início fundaram uma escola tcheca, que não se manteve devido a dificuldades financeiras. Esse pequeno grupo de compatriotas e membros da União Slavia, chegou a enviar por vezes recursos financeiros para a Biblioteca Municipal de Roveň, para obter livros. Assim foi fundada a primeira biblioteca tcheca no Brasil. Também foi fundado um grupo de entretenimento, que ministrava canto, teatro amador, organizava solenidades e, eventualmente, as tradicionais festas nacionais, como São José, Páscoa, etc. A União Slavia tornou-se conhecida e gozava de boa fama na Boêmia. Começou a correspondência com o país de origem. Tchecos que queriam emigrar pediam informações sobre as condições de trabalho e possibilidades de emprego. Com um incrível entusiasmo, planejaram-se eventos sociais, para os quais sempre se achou um número suficiente de voluntários. E assim se expandiu a tradição e a cultura tchecas no Brasil, principalmente em São Paulo. Todos aqueles que aqui chegaram mais tarde, foram muito bem acolhidos pelos conterrâneos.

Na época do primeiro levante tcheco, os “Slavistas” estavam em intensa atividade na Associação, apoiavam e acompanhavam a luta pela libertação nacional. Após a formação do Estado Tchecoslovaco em 1918, a “SLAVIA” mantinha contato por escrito com autoridades tchecoslovacas em Praga, mantinha contatos muito amigáveis com a Embaixada no Rio de Janeiro, que funcionou como consulado provisório da Tchecoslováquia, antes da normalização da situação.

Foi inaugurada a unidade de ginástica SOKOL, que organizava regularmente exercícios para formar uma fraternal alma eslava. E juntos, Slavistas e Sokolistas gozavam respeito das autoridades em relação à cultura tcheca. Por essa época, o cônsul da República Tchecoslovaca em São Paulo mantinha um estreito contato com SLAVIA, trabalhando com desprendimento, auxiliando até financeiramente.

Mas a época de entusiasmo e sucesso em trabalhos culturais e sociais foi substituída por letargia e desinteresse dos próprios membros. Durante quarenta e sete anos, nossos patrícios sempre tiveram dificuldade em conseguir um espaço social. Mudara-se dezenove vezes de casa para casa, de restaurante para restaurante. Por esta razão, o anseio por uma sede própria crescia. Somente em 1942, conseguiram comprar um imóvel em São Paulo. Era uma casa térrea com um grande salão, aposento para caseiro e com um bom quintal. O imóvel se situava na rua Dr. Rodrigo de Barros, 149, no bairro da Luz, próximo à estação ferroviária. Com muito empenho e amor, os compatriotas providenciavam material de construção e mobília, para deixar o imóvel em boas condições para receber a União.

A Europa já estava em guerra há quatro anos, o que provocou novo afluxo de imigrantes tchecos e eslovacos para São Paulo. A maioria veio sem recursos e acabaram dirigindo-se para a única associação de compatriotas existente, onde pediam ajuda na busca de um emprego.

Nos anos 50 houve uma drástica mudança na convivência entre os chamados imigrantes antigos e novos. Também foi cortado o relacionamento com as autoridades diplomáticas tchecas pela União. A razão disso foi que a maioria dos membros da União era quase composta por imigrantes pós-1948, isto é, condenados pelo regime instalado na Tchecoslováquia. Os representantes do governo tchecoslovaco perseguiam os imigrantes recentes anticomunistas e inclusive seus parentes que lá permaneceram.

O número de imigrantes recém chegados era numericamente muito grande e a pequena sede original não podia acolher todos os patrícios. Logo também surgiram diferenças de opinião entre imigrantes novos e antigos. Apesar disto, os recém chegados procuravam os compatriotas, tornavam-se membros da associação e, no ano de 1955, até membros da diretoria.

A solenidade de 28 de outubro, dia da Instituição da Tchecoslováquia e outros eventos culturais maiores, organizados pelos imigrantes, tinham de ser realizados em salas alugadas, e os eventos menores nas salas da própria União. No ano de 1957, a associação foi renomeada para UNIÃO CULTURAL TCHECOSLOVACA. Imigrantes novos começaram logo a assumir cargos de diretoria, até que passaram a conduzir sozinhos a União. Como os imigrantes começaram a se dar bem em seus empregos e empreendimentos, no ano de 1962 decidiram demolir por motivos de segurança a casinha perto da rua e construir no espaçoso quintal uma grande sala. Os membros começaram a doar dinheiro, para que a reconstrução do palco e do boliche pudesse ser feita. No fim de 1963 foi apresentado o projeto e plano financeiro de reconstrução do salão.

Entre os anos de 1955- 1960, governou o país o presidente Juscelino, de mãe tcheca e que assinou para muitos imigrantes o atestado de Cidadania Brasileira ou Naturalização.

Sua maior realização foi a construção da nova capital do Brasil, Brasília, mudando assim o governo do Rio de Janeiro para lá. Juscelino terminou seu mandato presidencial com bastante popularidade. Seguiram-se anos não tão róseos, com a eleição popular do presidente Jânio Quadros, que antes de completar um ano de mandato, renunciou por causas até hoje desconhecidas. Assumiu a presidência o seu vice João Goulart, mais conhecido como JANGO, de tendências ultra esquerdistas. Governou até 31 de março de 1964, quando foi deposto por uma junta militar, exilando-se no Uruguai. Durante seu mandato de esquerda, patriotas tchecos se engajaram na defesa da democracia e liberdade.

Essa situação extraordinária retardou a reconstrução do salão da União e tudo foi feito provisoriamente. Mas as festas continuavam a se realizar. Era Carnaval, TGM, festa dançante de São José, dia das mães, aniversário da República Tchecoslovaca, festas infantis com presentes natalinos e canções. Também se organizavam excursões e se apresentava o teatro de marionetes. Foi fundado o grupo de dança SLAVIA.

 Mas a reconstrução não se realizou e os consertos provisórios já não conseguiam impedir a deterioração do salão, que começou a ter problemas sérios. Durante quatro anos diminuiu o número de sócios por causa do ambiente desagradável. Só em 1968 o telhado foi restaurado. Neste ano também aconteceu a “Primavera de Praga” quando houve a covarde invasão da Tchecoslováquia pelos tanques soviéticos. Em uma reunião extraordinária, compareceu grande número de tchecos e representantes de todas as colônias de estrangeiros em São Paulo, além de imprensa e parlamentares. Organizou-se um protesto e patrícios subiram ao palco do Teatro Municipal em completo silêncio. Cantaram o hino tcheco sob os aplausos de todo o teatro. Os protestos desesperados continuaram pedindo ajuda para a Pátria.

Assim chegou outra leva de imigrantes, que no começo não se uniram à União Tcheca, que ainda se encontrava em crise. A unidade de ginástica SOKOL não tinha mais interessados e o equipamento foi vendido. O ano de 1969 foi registrado como um ano de atividade mínima. A diretoria, com muita dificuldade mantinha a União funcionando, mas estava claro que havia a necessidade de tomar uma decisão radical: vender o imóvel e comprar uma nova sede. Devido ao assombroso crescimento da cidade de São Paulo, também o bairro que sediava o imóvel, tornou-se inadequado.

Em 1974, foi encontrado um imóvel apropriado, mas faltavam 30% para totalizar o valor da compra. Só com doações dos membros e patrícios e um empréstimo de dois membros da diretoria, foi possível realizar a compra da sede. E assim em 1974, foi comprado o imóvel da rua Jacutinga, 601, no bairro de Moema. Foi uma alegria constatar quantas doações foram feitas, para que se pudesse novamente conviver e ter um lar tcheco em São Paulo.

Foi o início de outras atividades, possibilitadas pela aquisição de mobília, como mesas e cadeiras, louças, talheres e panelas de tamanho industrial. Em Moema começaram os cursos de culinária, almoços com comida típica tcheca e bazares anuais que ficaram conhecidos na região. Com estas atividades e mensalidades dos membros, a União pôde sobreviver. As senhoras doavam seu tempo e habilidades diversas, como pintura em porcelana, costura, além da doação de muitos artigos produzidos pelos associados. Mas as festas tinham de ser feitas em salões alugados, porque o sobrado não oferecia muito espaço. O grupo de dança continuava a ensaiar e sempre se apresentava no dia do imigrante ou no Festival Internacional da Dança Folclórica, organizado pela comunidade japonesa.

No bairro de Moema começou uma valorização imobiliária, com a construção em grande escala de prédios de apartamentos. As casas mais antigas no bairro foram compradas pelas Incorporadoras, acabando por dar lugar a edifícios de apartamentos. O perfil do bairro de Moema mudou completamente. Após anos de negociações, foi feita a venda da casa-sede no ano de 1989.

No mesmo dia foi adquirida nova sede, localizada à Rua Cassiano Ricardo, 195, no bairro de Jardim Cordeiro. Essa casa com 1.600 m2 de terreno e 700m2 de construção, foi uma alegria e finalmente pudemos fazer comemorações na própria sede, mesmo havendo necessidade de uma tenda para cobertura, para assim poder receber até duzentas pessoas. A venda da sede de Moema ainda deixou uma boa quantia de reserva financeira para o futuro. Esta nova sede oferecia espaço para ensaios de dança, piscina para natação e espaço para crianças brincarem.

Em 1989, com o fim da Cortina de Ferro e a possibilidade de visitar a Pátria, a freqüência dos patrícios diminuiu consideravelmente. Também a divisão da Tchecoslováquia em dois países, República Tcheca e Eslováquia, causou alguns traumas. Alguns sócios não se conformavam com essa separação e com a necessidade de mudar o nome da União para UNIÃO CULTURAL TCHECO BRASILEIRA, omitindo Tchecoslováquia. Muitos até hoje, tem dificuldades em aceitar o fato. Mas a maioria dos membros da União sempre foi da parte tcheca e não eslovaca da antiga Tchecoslováquia. Houve uma separação, pois os eslovacos tinham sua própria Associação.

Foi nessa nova sede que foi recebido o presidente Havel no ano de 1996 também o presidente Dr. Václav Klaus em 2009, com suas respectivas comitivas.

Em 2006, iniciaram-se as aulas do idioma tcheco, uma iniciativa do governo tcheco para a manutenção da cultura e costumes nacionais entre os imigrantes e seus descendentes. Os professores foram trazidos da República Tcheca, cujo governo arcou com os custos. Até a presente data, atuaram como professores na União Cultural Tcheco Brasileira Markéta Pilátová (2006-2007), Marek Belza (2007), Petra Mocová (2008-2010) e Klára Bachurková (2011-atual). Hoje existem em média 60-70 alunos, incluindo os da USP (Universidade de São Paulo).

A abertura das fronteiras, já mencionada, juntamente com o gradual envelhecimento e falecimento dos patrícios antigos, causou uma forte diminuição dos associados. Também devido à localização do bairro que é estritamente residencial e não permite atividades comerciais, além de ser bastante fora de mão para quem não possui automóvel, decidiu-se vender a sede e por enquanto alugar uma nova e investir o dinheiro recebido pela venda, para que no futuro a Associação possa comprar uma nova sede própria, sem necessitar da contribuição de seus membros. O endereço da atual casa alugada é rua Hideo Suguiyama, 79, próximo ao aeroporto de Congonhas.

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